Elza, o Mané e os manés

Lado A

Se todo o futebol é de certa forma musical, o de Garrincha é-o particularmente. O grande jogador brasileiro das pernas tortas entrou no imaginário dos adeptos pela sua capacidade de ultrapassar adversários e encantar assim o jogo. Em 1964, a dupla Menescal e Bôscoli lançaram o sucesso Balançamba, onde se dizia: “Se não você não sabe balançar/pede para o Garrincha te ensinar.” Simultaneamente, Garrincha representava um pedaço grande do Brasil, mistura de índio, negro e mulato, filho de migrantes do norte, quase analfabeto, malandro, operário descartável salvo pela bola. As suas qualidades dentro de campo conviviam com as dificuldades de lidar com os sucessos e infortúnios de uma carreira que o retirou do microcosmo da pequena terra onde crescera, na zona industrial de Pau Grande, nos arredores do Rio de Janeiro. Ao contrário de Pelé, o profissional correcto, bem comportado, passivamente sorridente e politicamente apolítico, a lenda Garrincha vinha misturada nos dramas da sua vida e também em milhares de litros de cachaça. Para o adepto do futebol, Garrincha era mágico e por isso ficou conhecido pela “alegria do povo” e o seu funeral foi uma enorme manifestação de massas. De tudo isto falou Ruy Castro em Estrela Solitária.

Lado B

Em muitas listas dos melhores discos de 2016 encontra-se o álbum Mulher do fim do Mundo de Elza Soares. O jornal Público atribuiu-lhe mesmo o prémio de álbum do ano. Não conhecendo grande parte dos outros álbuns que figuram, de forma bastante repetitiva, nas listas da imprensa musical especializada, nacional e internacional, o trabalho de Elza Soares merece ser celebrado. Com os seus 78 anos, ela reapareceu com mais vitalidade do que a maioria das bandas “jovens” e “rebeldes”, assumiu um som contemporâneo, criado por um bom maestro e compositor, pouco comparável com os êxitos da sua antiga carreira de cantora popular, mas certamente ajustado ao que ela veio dizer. E Elza tem muito para dizer.

Em Maria da Vila Matilde, Elza grita “jamais, mané”, clamor de luta contra a permanência da violência doméstica na sociedade brasileira – podia ser na portuguesa. O mané da história, grafado em minúsculas, representava sem dúvida esse homem comum, perpetrador de uma violência de larga escala que a historiografia tarda em determinar com alguma exactidão, quase sempre escondida no espaço reservado das regras familiares. Mas o “mané” seria também Mané Garrincha, com quem Elza foi casada durante 17 anos.

Elza fala ainda hoje de Garrincha como de um desprotegido. Ao contrário dela, que fugira com esforço e inteligência do “planeta fome”, expressão com que se anunciou na sua estreia televisiva, Garrincha foi representado pela própria como um sensual, um espontâneo, sedutor, ingénuo, indisciplinável, alvo fácil de todos os esquemas. Justificava esta “autenticidade”, rapidamente tomada por substrato cultural – não andamos longe de Gilberto Freyre – o monte de filhos de várias mulheres, a incontinência sexual, o regresso permanente ao sítio que o viu nascer e ao mundo alcoólico e festivo partilhado com Pincel e Swing, seus amigos de infância. Em nome desta protecção, Elza defendeu Garrincha dos abusos laborais do Botafogo, seu clube, que lhe pagava mal e lhe destruía o corpo. Em nome desta protecção procurou “civilizá-lo”, vê-lo a estudar, a vestir convenientemente, a participar da sociedade urbana de artistas e intelectuais à qual Elza por mérito pertencia.

Apesar da economia doméstica do casal depender muito de Elza, o seu magistério sobre Garrincha foi interpretado pela moralidade pública brasileira como um golpe do baú, dado num homem muito popular, ainda casado, pai de sete filhas legítimas a viver na pobreza. Como Garrincha era tido como um incapaz social, as suas reivindicações laborais, o seu desprezo pela família, só podiam ter origem na negra que ousara vir de baixo para pisar espaços que não lhes estavam reservados. Em entrevista recente, Elza diz que virou a Geni da canção da Ópera do Malandro “Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é boa apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá para qualquer um, maldita Geni”. Politizada, apoiante da esquerda de João Goulart derrubada pela ditadura militar em 1964, Elza continuou a ser perseguida e insultada e o casal acabou exilado em Roma, onde estavam outros brasileiros na oposição e onde Garrincha passou da cachaça para a grappa.

Elza assume hoje um olhar compreensivo sobre Garrincha, recordando-se dele desamparado, ingénuo, morto uma primeira vez quando uma lesão no joelho matou a sua arte e uma segunda e definitiva aos 50 anos, afogado em álcool e quase na miséria. É comovente quando ela conta que desceu a tribuna do sambódromo do Rio para evitar que Garrincha, na altura já ex-marido, sedado e meio-morto, fosse exibido por uma escola de samba (no final do primeiro vídeo), para acabar barrada pela espingarda de um polícia militar. Foi ainda ela que há pouco disse: “Conheci um Garrincha pobre e nosso amor era verdadeiro. O que sinto por ele permanece intacto”. Em 1997, em “Cuidado Mané”, cantou as contradições da adaptação do brasileiro à sociedade moderna que o queria disciplinar no trabalho, mas também na família, nas relações públicas e privadas, que lhe retirava uma autenticidade, o carisma de um mundo mágico que se perdia: “Cuidado mané, dá um tempo nessa pantomima/Luneta, boné, de bobeira na esquina/ Sem um documento para apresentar, devagar! … Os homens já estão te olhando com olhar diferente/ Você não se manca, não arruma um batente/ E a qualquer hora você vai dançar, vai se atrapalhar! … Depois não venha me dizer que foi dedurado/Você está dando mancada adoidado/ Eu acho bom você arrumar uma ocupação …. Viver de expediente já não dá mais certo/Você diz para todos que é malandro esperto/ Mas a gente sabe que és um tremendo fanfarrão …. Ainda ontem, eu sei que você tava lá na tendinha/ Com um tremendo oitão, uma pá de trouxinha/ O cambura parou, você saiu voado …. E os homens atrás de você, sentando o dedo/Quase que você faz visita a são Pedro/ Só estou lhe avisando para tomar cuidado!

A recorrência de uma representação do homem comum que mistura “malandragem” e inaptidão, álcool, afecto, autenticidade e dependência tem várias existências musicais, e talvez encontre no narrador feminino de “Com açúcar, com afecto” de Chico Buarque, um exemplo mais afinado, embora muitos outros pudessem ser referidos.

Elza vem acrescentar a tudo isto a violência. Em várias entrevistas, ela parece separar o “mané” da canção do seu marido Mané Garrincha. Se os afectos a ela pertencem, a verdade é que Maria da Vida Matilde rompe com uma certa representação culturalista em que as propriedade mágicas de um mundo que se ia perdendo conviviam com uma violência institucionalizada nas relações pessoais, muitas vezes escondidas sob o manto sedutor da comunidade que se perdeu. O seu “jamais mané” deixa claro que essa lei natural não é admissível nem legítima nem tão pouco romantizável. Pouco melódica e guerreira, mais punk que samba, a música de Maria da Vila Matilde suporta uma letra de combate: um combate feito por meios próprios, mas em defesa de uma lei justa que deve proteger e conferir direitos. Elza inclui no seu manifesto-canção dois outros gestos significativos: devolve o seu mané à respectiva mãe que o criou, mimado e mal acostumado; e masculiniza o corpo da objectificação sexual, já que o seu “mané” “deita, vira e dorme rapidinho”.

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One thought on “Elza, o Mané e os manés

  1. Douglas Vieira Ramalho says:

    Ainda se diz muito, mas se sabe muito pouco do que realmente foi a relação entre Elza, uma das mais cantoras dos últimos tempos, e Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol dos últimos tempos. Esse encontro de dois titãs desgraçados e destemidos ainda é atravessado por muito preconceito, incompreensão, revanchismo, ressentimento e, mais que tudo, fofocas. Claro que o que a Elza fala do Mané é importante e deve ser considerado. Mas, ao mesmo tempo, é uma pena que só tenhamos praticamente o lado dela para saber do que foi isso. A biografia do Ruy Castro demoniza à moda branca a Elza. As pessoas de Piabetá, no município de Magé/RJ, demonizam a Elza. Muitos a demonizaram, mas ainda pouco se diz do que era errado, do que era pra ter sido feito nas circunstâncias em que ela estava.

    Sobre o texto em si, fico de cara como o Nuno Domingos ainda se presta a falar da Elza à sombra do Garrincha. São duas estrelas de brilho próprio. Falar de um em função do outro é equivocado, pois acaba sugerindo que um dos lados era o vilão, um dos lados era a vítima. Não vou dizer com todas as letras, mas ainda é preciso rever essa ótica machista em falar da mulher em função do homem.

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