Divina comédia

Acompanhar um cantor, intérprete ou banda é um lugar seguro. Foi nesse sítio protegido, e certamente conservador, que coloquei o Neill Hannon. Conheci os Divine Comedy quando Hannon se fazia passar por galã de portos mediterrânicos, narrador perspicaz, sarcástico e erudito de um quotidiano que olhava à distância. Depois, no papel “dele próprio”, sem máscara, sentimental, a negação do primeiro. Mais tarde recuperou a ironia, que o deixa mais à vontade e lhe trava o excesso emocional. Em algumas canções, levando-se um pouco mais a sério, abdica desse filtro na relação com o mundo.

Da primeira audição do último álbum, Foreverland, pouco ficou, prejudicada, como tantas outras, por uma escuta reduzida ao estatuto de banda sonora das coisas que se fazem em primeiro plano. Mas ontem acordei com a faixa sete na cabeça. I Joined the Foreign Legion (to Forget) é um bom exemplo das contradições de Hannon. A melodia do piano é séria, bem como a tristeza dos coros e da harmónica. O tema, a história de alguém que se alista na Legião Estrangeira para se esquecer de uma paixão não podia ser mais dramático e exemplificativo dessas rupturas radicais e dos novos começos que permitem iniciar alguns bons romances. Mas para Hannon é difícil levar a seriedade até ao fim e a voz não renuncia a um tom mais próprio de um actor que conta uma história do que de alguém que a viveu e sentiu. No final, o narrador legionário assegura ter-se literalmente esquecido da pessoa que desejava esquecer.

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