A Vitória da Sala Burguesa

Quando escreveu uma original e esquecida história do Portugal contemporâneo a partir da sala do Teatro de São Carlos, Mário Vieira de Carvalho explicou bem como os comportamentos do público falam acerca do mundo.
Os Mão Morta, essa grande máquina de rock n roll, foram à Culturgest celebrar os 25 anos do album Mutantes S21. De bilhete na mão o espectador é conduzido ao seu lugar por um diligente funcionário. Antes do concerto uma voz avisa: é proibido fotografar, filmar e deixar o telemóvel ligado. Os espectadores devem também permanecer sentados. À terceira ou quarta música, perante o silêncio acomodado da audiência, Adolfo Luxúria Canibal relembrou com ironia os avisos de entrada como que a pedir, “mexam-se, falem, gritem”, mas o público manteve-se obediente, em contraste com o imaginário de transgressão da música da banda e das imagens que passavam em fundo, embora estas, na verdade, contribuam para aproximar o espaço do concerto da sala de cinema. É certo que o pessoal já não é novo e que os radicais de há 20 anos estão hoje, na sua maioria, instalados nas suas vidas profissionais e familiares. Também é verdade que a banda devia saber ao que vinha. Mas o modo como a economia moral da Culturgest ganhou aos Mão Morta a batalha pelos corpos dos espectadores foi dramática. A força invisível da sala, essa respeitabilidade partilhada e coerciva, deixou-os pregados às cadeiras. Nas últimas músicas houve um herói que lá foi dançar para a frente do palco, perante o olhar preocupado dos vigilantes da Caixa Geral de Depósitos. Ao fim do primeiro encore as pessoas levantaram-se para aplaudir, de acordo com os cânones, e aproveitaram para ficar de pé.  O concerto começou então, mas já só faltavam duas músicas. E talvez por isto tudo, muita gente saiu do concerto com uma sensação de estranheza e em certo sentido de derrota.
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2 thoughts on “A Vitória da Sala Burguesa

  1. Há uns anos, no Cinema São Jorge, foi mais complicado. Os zelosos funcionários do cinema poderiam passar o concerto inteiro com ameaças a qualquer pessoa que se mantivesse em pé fora do seu lugar, mesmo que várias pessoas se tivessem levantado e que o Adolfo Luxúria Canibal tivesse dito «mas nós deixamos» que o público se levante.

    Na Culturgest, já se sabia ao que íamos. Para mim teve ainda outra coisa estranha: estava na fila da frente e nem percebia o que se passava atrás de mim, se as pessoas se mexiam nas suas cadeiras ou não. Sentia-me ali sozinho a ver um espectáculo, com um certo mal-estar e a pensar «bom, pelo menos a qualidade do som é brutal, nunca tinha ouvido os Mão Morta tão bem».

    Temos problemas em desobedecer. Em desobedecer colectivamente.

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