Bluetooth Africa

A Sahel Sounds é uma editora sediada em Portland que, desde 2009, se dedica à edição de música popular contemporânea da região do Sahel da África Ocidental. Trata-se de um projecto de Christopher Kirkley, um jovem arquivista e etnomusicólogo que, numa viagem à região em 2008, descobriu todo um improvável mundo. O objectivo inicial da viagem era recolher sons tradicionais da região, mas acabou por se cruzar com um circuito musical muito diversificado e que funciona em condições muito diferentes do que se poderia supor, bem como do que sucede em qualquer metrópole europeia ou norte-americana. Ao tomar contacto com os mais diversos músicos, de hip-hoppers a guitarristas de blues ou a grupos nómadas de cantores tuaregues, produzindo e gravando em casa, nas ruas das cidades ou no deserto, com meios técnicos escassos, Kirkley deu-se conta que a música que ali se fazia era muito mais devedora de um cruzamento infinito de influências estéticas exteriores com referências mais «tradicionais» do que com qualquer esforço de preservação de supostas heranças culturais ou de marcas de identidade rígidas. Até aqui, provavelmente nada de novo. Na verdade, independentemente da forma como é embrulhada e vendida, a chamada «música do mundo», pelo menos em parte, é também um pouco isso: uma mercadoria entre o exótico e o kitsch, entre o tradicional e o moderno, etc.

Mas o mais surpreendente naquele caso não era tanto a forma produzir e gravar, ou o mix de referências estéticas, mas sim a forma como a música circulava. Tratando-se de gravações caseiras, não eram obviamente editadas em disco ou qualquer outro suporte físico; por outro lado, dada a escassez de computadores portáteis e o limitado acesso à Internet, o principal suporte dos ficheiros de música era o telemóvel e a sua partilha era feita preferencialmente por bluetooth, o que implica uma curiosa conjugação entre partilha digital, normalmente associada ao anonimato da rede global, e proximidade física, indispensável para a partilha por bluetooth. A consequência não menos interessante deste método – que, sublinhe-se, é uma prática quotidiana generalizada em toda uma região, sem conhecer fronteiras nacionais, étnicas, formais, etc. – é que assim que aqueles objectos são subtraídos à valorização mercantil e que a troca é substituída pela partilha, perde-se também, sobretudo a partir de uma certa extensão da partilha, a legitimação pela propriedade autoral. É evidente que o gesto de Kirkley de editar estas canções em disco, cassete ou mp3, para as vender através da sua empresa em Portland, as reconduz a uma função de mercadoria, bem como os seus autores à condição de proprietários, ainda que, neste caso, o método seja relativamente diferente do que habitualmente fazem as editoras. Os direitos adquiridos pela editora aos autores (nalguns casos será verdadeiramente difícil descobrir o autor…) limitam-se àquela edição, não havendo qualquer restrição a que as canções continuem a circular, de telemóvel para telemóvel ou seja lá de que modo for.

O catálogo da Sahel Sounds está disponível no bandcamp da editora e tem já mais de duas dezenas de edições, incluindo diversas colectâneas, álbuns de originais e reedições de raridades entretanto redescobertas. A última edição é o álbum Torodi, de Hama, um músico do Niger que compõe e interpreta as suas canções com um sintetizador electrónico. O sintetizador tem, aliás, uma muito boa tradição no Niger, como mostra o álbum, reeditado também pela Sahel Records, que Mammane Sani, a primeira pessoa a ter um sintetizador no Niger, editou em 1978.

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Corpos sonoros

Haverá hoje cada vez menos pessoas que ouvem álbuns de música. Enquanto antes a relação do ouvinte com a música gravada se dava preferencialmente através dos suportes analógicos (discos, cassetes, etc.), com a hegemonia dos suportes e meios de reprodução digitais a lógica da «playlist» suplantou a do «álbum». (Essa nova forma de ouvir música não é, obviamente, melhor nem pior que qualquer outra; é simplesmente outra.) Trata-se, portanto, de uma mudança determinada não pelas próprias obras musicais produzidas – tanto mais que os formatos predominantes da edição música continuam a ser equivalentes aos que antes se usavam, LP, EP, etc. –, mas por uma alteração nos suportes e meios de reprodução, cujo espaço e modos de armazenamento facilitam e induzem a organização de listas de canções de acordo com o interesse do próprio ouvinte, liberto que está do constrangimento físico dos meios analógicos. Mas é igualmente interessante notar que a relação física do ouvinte com a música mudou também significativamente. Também nesse aspecto, a mudança é determinada muito mais pelos dispositivos técnicos do que pela música propriamente dita. Ouvir uma faixa num leitor de mp3 ou num smartphone com headphones é imediatamente uma experiência para a qual é convocado todo o corpo, na medida em que é no interior do corpo que é reproduzida a música.

A questão da relação física do ouvinte com a música que ouve não é nova. Já em meados dos anos 1960, o supergrupo Theatre of Eternal Music, constituído por John Cale, La Monte Young, Tony Conrad, Angus MacLise, Terry Jennings, Marian Zazeela, entre outros, pensava a sua música como forma de superação de um falso dualismo entre entretenimento, como forma de distracção, e arte, na forma de artefacto que serve para ser contemplado, procurando construir um campo de experiência física comum em que operassem simultaneamente os corpos dos músicos e dos ouvintes. Esse campo comum constituía-se pelo preenchimento de espaço e tempo por massa sonora, uma construção por camadas gerando uma experiência sensorial de infinitude do som. «Dream music», chamavam-lhe eles.

O álbum Sombras Incendiadas, de David Maranha e Helena Espvall, recentemente editado pela Three:Four Records, remete-nos justamente para o «interior do sindicato dos sonhos», para a tensão interminável de um som que se acumula no espaço e no tempo. Com a enorme vantagem de, em 2015, poder ser reproduzido dentro do nosso próprio corpo…

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