Acabar um discurso de vitória ao som dos Clash já é alguma coisa.
Marco Paulo fez 70 anos. Quem gosta dele pouca capacidade terá para oficializar a sua memória. Apesar da internet, é possível que o popular cantor seja engolido pelo vórtice da novidade. Esta versão de Anita (tema de 1982) tem 37 000 visualizações no youtube, mas já A Saudade de Ti, de Tony Carreira, tem 2 170 136. Regressar ao sucesso Anita não persegue o elogio do kitsch, uma ironia quase sempre desinteressante. Marco Paulo merece ser estudado porque permite explicar a sociedade portuguesa, mas também porque algumas das suas canções, como outros temas pop, criam uma proximidade que desafia géneros e classificações, fenómeno que alguns tentam disfarçar invocando precisamente o kitsch, uma cortina higiénica para evitar contaminações. Neste vídeo de 1982, os aparecimentos fugazes de uma pretensa Anita, bastante desenxabida e descontextualizada, não iludem que o herói do vídeo é o próprio Marco Paulo, a usufruir sozinho e em liberdade (como a Anita da letra) de um complexo turístico à beira mar, provavelmente no Algarve. Talvez Marco Paulo pudesse citar Flaubert.
Esta é um obsessão antiga. Sempre me pareceu que “Por este rio acima”, canção-título daquele que será o melhor álbum feito em Portugal – afirmação a merecer réplica urgente – tem parecenças com o “The End” dos The Doors, nomeadamente no ritmo melódico oferecido pela guitarra. Fica a coisa em baixo para efeito de comparação. Filme onde a música dos The Doors ganha outro sentido, o Apocalypse Now de Coppola, tal como o romance de Conrad em que se baseia, também avança por um rio, em direcção ao horror. A recente enfermidade lusotropical de Fausto leva a temer que o seu rio possa desembocar na foz da patriotice. Mas como a audição da música nos pertence, façamos do excepcional rio o que bem nos apetecer e salvemos o génio de Fausto.
Em 1994 Damon Albarn e companhia cantavam GIRLS WHO ARE BOYS/WHO LIKE BOYS TO BE GIRLS/ WHO DO BOYS LIKE THEY’RE GIRLS/WHO DO GIRLS LIKE THEY’RE BOYS/ ALWAYS SHOULD BE SOMEONE YOU REALLY LOVE. A canção relatava em ritmo contagiante as viagens de férias dos jovens ingleses nos anos noventa para os paraísos mediterrânicos onde viviam o seu carnaval e se descobriam. Lucas Santtana (com dois ts), cujo estilo vocal ao vivo se assemelha perigosamente ao de Abrunhosa – felizmente as máquinas hoje resolvem tudo e o disco é jeitoso – prossegue no caminho da desconstrução classificatória, com este Funk dos Bromânticos. Mas se na canção dos Blur a desclassificação do género parece refém das viagens para o sul das praias e do sol, em Santtana o processo está dependente de um outro clima, mais interaccional e geograficamente descontextualizado, mas ainda assim de um clima.
No dia 13 de Outubro de 1989, no Estádio Comendador Manuel de Oliveira Violas, baptizado em honra do grande industrial do têxtil, que se dedicou depois ao negócio dos casinos, Vítor Paneira saiu do relvado agarrado à coxa esquerda. Passavam 76 minutos e foi substituído por António Pacheco, que jogou os últimos minutos colado ao lado direito, coisa que não gostava muito, mas o sueco é que mandava. Coxeando a caminho do balneário do Sporting Clube de Espinho Paneira foi abordado por um repórter de rádio. “Então Vítor, é grave?”. “Não sei, só depois dos exames, mas agora o que me apetece é ir para o pé da minha mulher e dos meus filhos”. “E mais alguma coisa?”, “Sim, gostava de ouvir a Cecilia Bartoli”.
Cobain foi o último dos grandes viscerais. A afirmação é ligeira. Vá lá, é capaz de não ter sido o último, mas foi de certeza um dos maiores. Há bandas extraordinárias que não são minimamente viscerais e alguma música que se tornou moda entre as minorias, no seu conceptualismo teórico, carece de visceralidade; da boa, pelo menos. É como no mundo académico. É bom recuperar o significado político desta visceralidade nascida na garagem.