Lionel Ritchie e o efeito eco

Na terceira história do segundo volume da trilogia «Mil e uma noites» («o Desolado»), intitulada «Os Donos de Dixie», porventura a mais amarga e melancólica, o personagem Humberto (João Pedro Bénard) coloca no gira-discos a música «Say you say me» de Lionel Ritchie. À semelhança de canções como «Classic» de Adrian Gurvitz, «I Want To Know What Love Is» dos Foreigner, ou «I Should Have Known Better» de Jim Diamond, o tema de Lionel Ritchie é ilustrativo do universo meloso de meados dos anos 80, actualmente convertido em produto de recordações nostálgicas. Tratam-se de canções aparentemente vulgares e desinteressantes, mas convém não ser peremptório no julgamento, até porque estas canções fizeram parte da educação sentimental de vários pré-adolescentes, que as ouviram agarradinhos em matinées dançantes compostas musicalmente por slows.

Atribuir uma música a um personagem serve para caracterizar e vincar um papel. Neste caso de Humberto, um velho pobre e suburbano, adepto do Benfica que compra habitualmente «O Record», quando devia comprar «A Bola», conhecido popularmente como jornal de todos os lampiões. Aqui e ali a caracterização das personagens parece imperfeita e há declarações desajustadas e destituídas de pathos, como aquela em que Vânia (Joana de Verona) descreve o seu relacionamento com Vasco (Gonçalo Waddington), ex-toxicodependentes, dizendo que «esta é uma história de amor muito fodida, mas mesmo fodida, mas é uma história de amor».

Uma situação social não chega para fazer um filme político. Num episódio com pretensões realistas, e em que o apelo à realidade é constante, há lugar-comuns desnecessários, nomeadamente quando se parte do princípio que um velho suburbano de Santo António dos Cavaleiros ouve com naturalidade o «Say you say me» de Lionel Ritchie em vez do «Winterreise» de Schubert. Muitos terão mordido o isco da caracterização sociológica, e fizeram uma correspondência directa entre o gosto musical de Humberto e a pobreza cultural dos subúrbios. Porém, Humberto, como se autonomizasse de um guião pré-definido, não se limita a desfrutar da canção de Lionel Ritchie, ele pronuncia-se sobre o seu tipo de som, tecendo um comentário «erudito» sobre a produção musical dos anos 80. Humberto refere-se concretamente ao eco que está presente nas produções musicais da época.

Assim como o auto-tune está para a produção musical contemporânea, aperfeiçoando as performances vocais no Rap e R&B, o efeito eco caracterizou algumas produções musicais da década de 1980. Desde os trabalhos seminais de Lee Scratch Perry e King Tubby no início da década de 1970 que os ensinamentos do dub – ecos viçosos, «delays», reverberações e múltiplos efeitos sonoros – contaminaram o universo da pop. Não se pretende alterar o valor das coisas para as tornar mais dignas, dizendo por exemplo que o comentário de Humberto o redime do seu meio social, mas convinha não achar que tudo o que as classes populares ouvem é banal, estereotipável e digno de condescendência. Humberto não nos diz, como alguns críticos afiançam, que o «Say you say me» é a canção mais bonita do mundo, ele fala-nos sobre o efeito da canção, interpretando-a com um comentário que transcende o círculo das identificações sociais e baralha as caracterizações naturalizadas. Nada como a riqueza sensível para contornar a prepotência dos lugares arrumados.

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