Os lares do hardcore norte-americano

Um escriba qualquer da Noisey dizia há dias, a propósito de uma entrevista ao John Porcell, que o punk/ hardcore é uma “subcultura nostálgica”. Para demonstrá-lo, sugeria que pensássemos na música que tinha provocado a reacção mais intensa no último concerto de hardcore a que assistimos: teria sido, muito provavelmente, uma cover de uma banda old school qualquer. Este carácter nostálgico ajuda a explicar a fertilidade do género para gerar literatura historiográfica ou memorialista, pelo menos proporcionalmente à sua dimensão e por comparação com outros géneros musicais. Para além dos livros dedicados a cenas nacionais, ao género como um todo ou às bandas “canónicas” (Sex Pistols, The Clash, Ramones, Dead Kennedys, Black Flag, por exemplo), surgiram, nos últimos 15 anos, bastantes obras preocupadas em abordar a história de cenas específicas (associadas a uma cidade ou uma identidade ou sub-género particulares): desde a cena Nova Iorquina ou de Los Angeles até às cenas de Camberra na Austrália ou de Ümea na Suécia, passando pelas obras dedicadas ao Straight-Edge, ao Anarco-Punk ou às Riot Grrrls, por exemplo. Para não falar da quantidade de obras que estão na calha… Portugal juntou-se a esta tendência este ano com duas obras: uma por alguém que vem da cena Hardcore, o Paulo Lemos, e outra pelos sociólogos Paula Guerra e Augusto Santos Silva, parte de um projecto académico mais ambicioso (espero voltar a este último livro aqui no blog).

A esta “nostalgia” hardcoriana não é alheia uma mudança geracional, talvez ligada a uma sensação de “fim de ciclo”, que assume ter desaparecido a capacidade de inovação e de transformação que se via como característica destes géneros. É claro que isto não explica tudo. O hardcore pode ser considerado uma “comunidade imaginada” sem fronteiras, no sentido em que quem dela se sente parte considera-se integrado num todo, composto por elementos com quem se julga ter afinidades e com quem se partilha um conjunto de códigos, símbolos e valores, sem que, no entanto, grande parte dos seus membros alguma vez tenha comunicado ou contactado directamente entre si. Cada cena, apesar de pequena, tem a capacidade de gerar experiências intensas e duradouras na vida de quem nela se envolve. Para isto contribui o facto de quase toda a gente destes meios ser produtora de qualquer coisa. Geralmente, quem é apenas consumidor ou está a fazer algo mal ou não percebeu muito bem a dinâmica da coisa. Mesmo do “consumidor” mais materialista é esperado que organize concertos ou que monte uma editora ou distribuidora de cd’s/ lp’s/ etc., merchandising ou de zines, no lugar de se limitar a acumular o que os outros fazem para usufruto pessoal.

Grande parte destas histórias ou memórias têm, no entanto, com frequência, um carácter apologético, por vezes quase épico, na medida em que são escritas por alguns dos seus principais intervenientes ou por pessoas que mantém uma relação com a cena punk/ hardcore. O tom é geralmente narrativo, cheio de episódios caricatos, boatos e historietas – algo que de facto não interessa nem convém pôr de lado – e raramente crítico, sem prestar grande atenção a factores aparentemente extrínsecos a essas culturas mas sem as quais estas não se percebem. Portugal, por exemplo, teve várias cenas hardcore, com características muito diversas e, tal como noutros contextos, quando as vemos referidas raramente vemos entrar na equação as condições sócio-económicas em que emergiram. Ou vemos o punk/ hardcore referido como um campo coerente, em que as diferenças e desvios se esbatem em função de uma certa uniformidade, ou então vemo-lo tratado como se cada cena que o compõe pouco mais fosse do que uma espécie de “gang” a que pertencem estes e aqueles indivíduos, e estas e aquelas bandas, sem que no entanto haja qualquer interesse em aprofundar o que está por trás das diferenças que distinguem cada uma e que, por vezes, até as torna antagónicas entre si. As cenas hardcore de Loures ou da Margem Sul do Tejo que se desenvolvem entre os anos 90 e a década seguinte não surgem nas mesmas condições – ou através de sujeitos nas mesmas condições sócio-económicas – do que o hardcore que explode na linha de Sintra no mesmo período. O punk da malta de Alvalade parece ter ainda menos proximidade sociológica com estas outras cenas dos subúrbios. Algumas incompatibilidades entre estas núcleos, e até algumas das cisões que surgiram no hardcore na última década, só são compreensíveis se atendermos a certas condicionantes que se traduziram em conflitos não apenas “culturais” mas, também, de classe.

Este parlapié todo para finalmente chegar àquilo que me motivou a escrever este post: um site fascinante (entre o idiota e o genial, portanto) que me veio parar ao ecrã do computador esta semana, o Hardcore Architecture (em permanente actualização). O autor, Marc Fischer, pegou nas Maximum RocknRoll que tinha em casa e decidiu coscuvilhar no Google Maps as moradas associadas a algumas demos/ EP’s/ álbuns recenseados na revista entre 1982-1989. A partir daí deu a cada banda uma “cara” arquitectónica. Parece um exercício meio fútil, coisa de quem não tem nada para fazer (e muito provavelmente é esse o caso), mas a ideia ajuda a perceber muitas coisas e a baralhar outras sobre uma história social do hardcore por fazer. Pelas casas, o padrão parece ser, previsivelmente, uma cena feita de putos duma classe média confortável a residir em subúrbios aborrecidos. Por exemplo, e para começarmos por duas bandas bem presentes na história do género, a morada de Violent Children (a primeira banda do Ray Cappo e do Porcell) tem ar de albergar gente que não se podia queixar muito da vida e a de Vatican Commandos (a primeira banda do Moby, esse mesmo que estão a pensar) idem. Ainda neste circuito mais “positive”, ligado a estilos de vida como o Straight-Edge, os Project X parecem ser uma pequena excepção a este padrão de classe média suburbana, com a morada da demo a remeter para um bloco de apartamentos meio manhoso que dá a entender que podiam ter alguma razão para estar chateados com a vida (aliás, Project X, como a recensão refere, apesar do estilo de vida que promoviam, não era lá muito positivo: “all the songs are negative – how’s that for positive – and insinuate violence, revenge, threat, and other forms of good living”).

A casinha de The Crucifucks, por outro lado, é unifamiliar mas tem um ar muito humilde e não envergonha ninguém numa banda com uma atitude política mais combativa como a que tinham. Já os aldrabões dos Breakdown, com um som urbano mais da “street”, cheio de beat-downs, e que na capa de uma das suas edições tem uns jovens a irromper com fúria pelo meio de prédios que podemos supor serem de habitação social, tinham o quartel-general numa casinha toda pipi e bem ajardinada. O mesmo com Murphy’s Law que, afinal, também vivia num sítio com bom aspecto e aparentemente pacato, num bloco de habitações igualmente unifamiliares mas geminadas.

Curiosamente, a algumas bandas mais artsy/ avant-garde, mais dadas ao experimentalismo e ao cruzamento de referências diversas, a que rapidamente tenderíamos a colocar o selo de jovens pequeno-burgueses a frequentar escolas de arte, correspondem moradas que dão para blocos de apartamentos terrivelmente banais e por vezes meio decadentes, bem longe do conforto das casas da periferia com jardins e com espaço para jogar à bola com os amigos. É o caso de bandas como The Honeymoon Killers ou Pussy Galore. Noutro registo, mais trashy e rápido, também a morada dos NYC Mayhem dá para o meio dum cruzamento rodeado de prédios que parece tão agitado quanto a música que faziam.

Entre as casas com pinta, já a entrar num nível sócio-económico mais elevado, há a destacar Broken Talent, de Miami, onde se vê que reside malta que gosta de viver a vida e de passear de descapotável junto à beira-mar, a casa de Cryptic Slaughter, para contrariar quem gosta de dizer que os metaleiros são mais “working-class” que a malta do punk/ hardcore, ou a casa bastante à frente de 10 Minute Warning, banda a que pertenceu o Duff McKagan dos Guns’n’Roses e, posteriormente, dos Velvet Revolver.

Para terminar, destaco o lar dos Fish Karma, uma casota ridícula – qualquer coisa entre um estaleiro das obras ou um pré-fabricado perdido num parque de caravanas – rodeada por uns pinos que nos permitem imaginá-la como um local de boas gincanas de fim de semana. Na review, curiosamente escrita pelo Jello Biafra, onde o autor do site foi buscar a morada, surge uma questão a que uma foto da casa teria ajudado a responder: “What is it about Arizona that creates such warped people?”

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Modern Life is War: tédio, angústia e futilidade

Não há nada mais político do que a banalidade das nossas vidas. A dimensão institucional da política, e a separação que encenou da vida quotidiana, contribuiu para que a omnipresença do político se tornasse paradoxalmente invisível. A minha politização fez-se toda fora do quadro institucional, num contexto bastante informal e distante daquilo a que usualmente chamamos a “política”. Foi na música que por acaso descobri as “ferramentas” que me permitiram começar a encontrar legibilidade no mundo em que vivia. Entre o que me tinha sido transmitido sobre esse mundo e aquilo que eu comecei a encontrar pelo meu próprio tacto à medida que crescia, instalava-se uma enorme fissura que se traduzia num misto de confusão mental, sensação de deslocamento não sei muito bem do quê e um enorme aborrecimento. Sentia-me a viver uma tremenda farsa. É um fenómeno geralmente conhecido por “adolescência”, eu sei. E é verdade que a saída que encontrei para isso também é uma terapia comum neste tipo de diagnóstico. Mas é certo que na música – e em particular na “cena” hardcore altamente politizada saída dos anos 90 – encontrei um conjunto de referências e práticas que abalaram quase todos os débeis alicerces em que assentava a “cosmologia” que me tinha guiado até então.

Quando conheci Modern Life is War (MLIW), para aí em 2003 ou 2004, esse choque já tinha sido vagamente superado. Começava, aliás, a invadir-me outro tipo de frustração, causado agora pela esterilidade dessa pequena “cena” que me tinha agitado, cada vez mais entregue ao conforto ritualístico de gritar incessantemente a mesma série de lugares comuns e chavões. Para lá do som muito próprio (raivoso e sujo, com padrões rítmicos e estruturas algo estranhas para as normas do estilo, mas melódico e sem beatdowns, numa fase em que começava a parecer impossível haver hardcore sem tal coisa), MLIW chamou-me a atenção pelas letras e por ter dado sentido a essa “banalidade” da política cada vez mais clara para mim (tanto no hardcore, como no meu bairro ou na escola), unindo o quotidiano com os “grandes eventos” que nos sufocam discretamente e que acontecem para lá do nosso domínio. Nascido e criado num tranquilo bairro povoado de gente sedada pela aparente estabilidade dos anos 90, mas onde a pobreza não era uma memória assim tão longínqua ou uma possibilidade muito remota, identifiquei-me imediatamente com o alerta de que “we’re all dangerously close to the bottom” que perpassa as letras de MLIW.

mliw

O que distingue liricamente Modern Life is War de outras bandas do género é a enorme capacidade que Jeffrey Eaton tem de expressar a trivialidade e a modorra a que a dada altura quase todos parecemos estar condenados. Seja numa letra em que conta a “história” do vizinho regressado da guerra do Iraque como herói, e a quem pouco mais tem para dizer do que “yeah, I’m still playing in that stupid band” (in “John and Jimmy”), seja através das frequentes proto-psicogeografias em que desfia as suas angústias pela paisagem urbana decadente e pós-industrial de Marshalltown, é invariavelmente o absurdo e futilidade existenciais que marcam o imaginário de MLIW. Nessa narrativa surge um tremendo retrato dos Estados Unidos contemporâneos, mas um retrato que é apesar dessa localização um retrato universal, atravessado por um quotidiano e uma panóplia de sentimentos com os quais estamos suficientemente familiarizados. O sujeito das suas letras é geralmente um puto tão aborrecido como eu ou outro gajo qualquer. É a “gente comum” (“we’re common, we’re desperate”) dos subúrbios ou duma pequena cidade industrializada do interior norte-americano, são os reféns do “Sonho”, enterrados na banalidade dos dias e corroídos por um enorme tédio. A comunhão que encontramos com esses sujeitos não é mais do que a de uma experiência partilhada e moldada pela mesma maleita que Marx encontrava por trás da “contínua perturbação de todas as relações sociais, interminável incerteza e agitação” que define a nossa “era”.

A força política de MLIW está em não ser panfletária, nem entrar naquela espécie de discurso pobre de “auto-ajuda” e “empowerment” muito presente nas bandas do género. Não agita bandeiras, não parece ter causas e não faz apelos a nenhum tipo de acção heróica. Para além da ausência de certezas e da insegurança que atravessa cada palavra, em muitas das suas letras, textos ou entrevistas surge aqui e ali um resquício desse nacionalismo banal, ainda que em forma de desilusão, que tanto afasta muita da vanguarda radical da “cena”, mais dada a queimar bandeiras.

Para as bandas mais radicais e politizadas do hardcore, MLIW nunca parece ter sido, por estas razões, uma banda política. E, como é comum, em particular nas bandas norte-americanas, MLIW também sempre recusou esse estatuto (Jeffrey vê o que escreve como parte de uma conversa entre “angry Americans” e, como é comum nas bandas “não-políticas”, quase pede desculpa cada vez que foca explicitamente um tópico político – veja-se, como exemplo, o que escreveu sobre os tumultos de Ferguson). A tudo isto não é alheio um aspecto de classe: nas duas últimas décadas, as bandas politizadas, nesse sentido militante, ficaram cada vez mais associadas a putos da classe média, a frequentar a universidade e com um discurso sofisticado, o que deixou cada vez menos espaço para a malta dos subúrbios ou dos bairros mais fodidos onde pululam as classes baixas. Estes últimos, na melhor das hipóteses, expressam alguma consciência social através da descrição dessa vida quotidiana, sem um grande aparato para transformar uma experiência particular num plano de acção política ou sequer numa linguagem universal apelativa para todos. Expressam a raiva que têm ao mundo nas letras das músicas, mas fazem-no de uma forma que é vista como ingénua e inconsequente, frequentemente a resvalar para um certo niilismo. A separação das águas empurrou cada vez mais miúdos para a catarse imediata da violência dos moshpits e da pertença a uma crew e menos para a dissecação aborrecida do mundo feita através das palavras. Em suma, o hardcore dito “político” reproduzia cada vez mais o elitismo e a “violência de classe” de que procuravam fugir todos os deslocados que ali tinham caído. A “cena” tornou-se um sítio onde se sentiam inúteis e estúpidos, tal como se sentiam na escola.

MLIW veio de certa forma resgatar o lugar de uma rebelião mais visceral e menos encartada de uma “cena” estagnada por uma dicotomia sem nexo. Abriu de novo o espaço para toda a gente falar sem ter medo de o fazer por não ser “especialista” neste ou naquele assunto. A honestidade que as suas letras e textos carregam pode ser menos espectacular do que a provocação estética ou um ataque frontal aos costumes e às instituições políticas que muitas vezes associamos ao punk/ hardcore. Mas a reclamação da dimensão política da banalidade, do quotidiano e da futilidade é, parece-me, o primeiro passo para recuperar o controlo da própria vida por quem cai desamparado na “cena”; é o que permite resgatar a política ao espectáculo “com lista VIP” a que ficou entregue. MLIW é uma revolta onde cabemos todos.

Isto tudo porque MLIW vem “passear” à Europa este mês e, mais uma vez, não passa por Portugal. Como sempre, e sem dinheiro para ir vê-los a qualquer outro lado, compenso-me com um vislumbre da energia que libertam em cada concerto através de um humilde vídeo. Falar de hardcore sem sentir minimamente essa descarga é vazio. Espreitem-no:

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