Como queimar um milhão de libras

Para queimar um milhão de libras é preciso, antes de mais, tê-las. Era o caso de Bill Drummond e Jimmy Cauty, mais conhecidos por “os homens que queimaram um milhão de libras” ou The KLF. Estes dois começaram a amealhar tamanha quantia quando se juntaram, em 1987, através daquilo a que, para simplificar, podemos chamar um enorme assalto à cultura. Tal assalto, acontecido em vários actos, implicou, naturalmente, “capturas” em flagrante delito, resultando em condenações que os obrigaram a pagar multas e indemnizações.

klf

O primeiro álbum que lançaram juntos, em 1987, intitulado 1987 (What the fuck is going on?), sob o alias The Justified Ancients of Mu Mu (JAMMS), denunciou aquela que seria uma das suas fórmulas de composição preferidas, o plágio descarado. Adicionando a um conjunto de samples, facilmente reconhecíveis, umas batidas simples e “letras”, geraram uma mescla próxima de um rap old-school. O álbum teve mais cobertura mediática e sucesso comercial do que esperavam e, rapidamente, choveram cartas de representantes dos ABBA (os fornecedores involuntários dos inúmeros samples que compõem a música “The Queen and I”) a acenar com processos e pedidos de indemnização, caso não tirassem do mercado o álbum e destruíssem toda a tiragem disponível. Obedientes, os JAMMS assim o fizeram; não sem antes visitarem a Suécia, numa viagem com algumas “peripécias”, com a esperança de conhecer os ABBA, fazer amizade e convidá-los a produzir o próximo álbum. Infelizmente, nenhuma destas coisas aconteceu. Mas o primeiro episódio não ficou por aqui e os JAMMS decidiram reeditar o álbum, desta vez sem os samples cujo uso tinha sido desautorizado pela Mechanical-Copyright Protection Society. O resultado foi um disco com longos períodos de silêncio, intercalados por breves fragmentos musicais, e acompanhado por um manual com instruções detalhadas para que cada um pudesse “reconstruir” o álbum em casa.

Uma das maiores fatias dos milhões que iam juntado sem saber muito bem para quê, surge no ano seguinte, em 1988, com um novelty single, “Doctorin’ the Tardis”, com a dupla a adoptar o nome de The Timelords para o efeito. Em três semanas, chega ao primeiro lugar do top britânico, e alcança outros lugares honrosos em tops pelo mundo fora, com as massas a revelarem dessa forma um enorme desprezo pela imprensa especializada que se dedicava a demolir o trabalho com os piores epítetos possíveis. A fórmula do sucesso consistiu, novamente, na junção descarada de músicas alheias, desta feita recorrendo a “símbolos” da cultura popular britânica das décadas anteriores, como a música original do Dr. Who e a música “Rock’n’Roll, part. 2” de Gary Glitter. Editado o single e atingido o sucesso, supostamente premeditado, os The Timelords publicam imediatamente a seguir um livro intitulado The Manual (How to have a number one the easy way), obra hoje reclamada como inspiração por várias artistas que alcançaram o sucesso. De enorme aberração e produto nauseante, a história elevou “Doctorin’ the Tardis” a um dos grandes êxitos de “trash art” (note-se a sua promoção a arte).

As histórias são tantas que vou saltar para o derradeiro momento que os levou a anunciar um interregno de 23 anos (nem mais nem menos), ignorando para isso os álbuns que fizeram como The KLF (passando a infame prestação nos Brit Awards de 1992) e as primeiras acções como K Foundation, a “fundação” surgida após anunciarem o abandono da indústria musical para se dedicarem à arte (tendo destruído todo o catálogo das suas produções musicais) e criada com o propósito de “aplicar”, de formas pouco convencionais, o dinheiro recebido por todo o trabalho feito anteriormente (se os artigos espalhados pela internet não chegarem, há o livro de John Higgs, The KLF: Chaos, Magic and the Band Who Burned a Million Pounds, ou o documentário da BBC partilhado aí em baixo).

Já com uma vasta obra realizada, ou provavelmente possuídos pela grande epidemia da humanidade, o tédio (ainda que poucos tenham a oportunidade de padecer de tal desgraça com muito dinheiro nos bolsos), foi precisamente como K Foundation que, em 1994, decidiram incinerar um milhão de libras. Concretizaram o acto numa cabana, na ilha escocesa de Jura, juntamente com um amigo que filmou a cena para mais tarde recordar. Foram precisos quase seis meses para encontrar a coragem para comunicar ao mundo o brilhante feito – longos meses atravessados pela pergunta matinal “o que é que eu fiz?!”, longos meses para encontrar uma boa razão que permitisse ao mundo, e aos próprios, perscrutar alguma sensatez no gesto (Drummond e Cauty estariam, certamente, mais arrependidos do que interessados na sensatez, de quem há muito eram órfãos). Se estavam à espera de uma boa resposta, não a têm, pelo menos formulada pelos próprios. A partilha de tal obra prodigiosa com o resto da humanidade fez-se através da exibição da gravação do acto em galerias de arte e outras salas, seguido de uma conversa cujo propósito era encontrar um motivo para a acção com a ajuda dos “espectadores”. A estreia deu-se passado um ano, na mesma cidade onde se cometeu o crime. Muitos dos presentes, talvez num misto de descrença e desprezo, conseguiram fruir perante a obra de arte e aplaudir no final. Mas, à medida que os debates avançavam, instalava-se o desconforto e a perplexidade perante o que parecia um statement tão grande mas, surpreendentemente, desprovido de qualquer narrativa que o sustentasse. Muitos, pobres e mal-agradecidos, recusaram uma participação activa nesta espécie de busca pelo santo-graal do absurdo e reagiram com uma mistura de choque e revolta, gerando debates enfurecidos na televisão e artigos escandalizados na imprensa. No balanço final, uma das “conclusões” mais consensuais – talvez mesmo a mais consensual – foi a de Drummond e Cauty serem um bando de idiotas irresponsáveis que só queriam aparecer. O que me parece injusto. Não há etnografia conclusiva para um potlatch deste gabarito, admito, mas parte do absurdo do gesto está na realização de um acto impensável sobre aquilo que é o busílis material da racionalidade que regula o nosso mundo. Uma coisa é “queimar” um milhão de libras em cuecas ou perfumes, outra coisa é queimar de facto tal quantia, sem motivo, nem sequer o de alimentar o calor da lareira, como fez Pablo Escobar. Estava em causa não a destruição de dinheiro, mas sim a sua negação (como sugere John Higgs), coisa que não parece feita para causar conforto ou suscitar uma admiração reverencial.

Depois de alguns meses de exibição do documentário pelo país, e algo desiludidos por não terem entrado directamente para o panteão das figuras mais honradas e inspiradoras da história universal, Drummond e Cauty, em Novembro de 1995, decidiram estabelecer um contrato com a humanidade. Nesse contrato, prometiam um interregno de 23 anos, período que serviria para reflectir sobre a incineração da fortuna, e quiçá encontrar a razão perdida por trás do gesto, comprometendo-se igualmente a não falar sobre o assunto. O contrato foi assinado no capô dum Nissan Bluebird que decidiram atirar de um penhasco algures na Escócia.

Acontece que em Agosto deste ano cumprem-se os 23 anos do famoso ritual e avolumam-se os sinais do regresso de Drummond e Cauty. Para além de posters que apareceram afixados por Londres e outras cidades inglesas, com um singelo “2017: What the fuck is going on?” e o anúncio, nada oficial, do regresso do duo sob a forma de The Justified Ancients of Mu Mu, surgiu um vídeo meio estranho (creio que já “renegado” por Drummond) que pode ser visto aqui:

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