(texto publicado no Jornal Mapa #21, em Agosto de 2018)
Há algum pudor em ver o punk abordado pelas ciências sociais. E é compreensível. O punk teve (e tem) um impacto tremendo na vida de muita gente e, contudo, não é raro vê-lo ser maltratado por discursos que lhe são completamente estranhos. Junta-se a isso um certo desdém anti-intelectual, presente em algumas culturas como esta. Mas o encontro com a academia era inevitável. Infelizmente, a autoridade do discurso académico produz geralmente relações desiguais com os objectos da sua atenção. Quanto maior for a “marginalidade” desses objectos, também maior tende a ser a impunidade com que se dedica a esvaziá-los, a distorcê-los ou a neutralizá-los.
O início deste encontro em Portugal – pelo menos na sua expressão mais ambiciosa e visível – é exemplificativo dessa assimetria. Falo de As Palavras do Punk, publicado em 2015 (Alêtheia Editores) e assinado por Paula Guerra (PG) e por Augusto Santos Silva (ASS), no âmbito de um projecto de investigação ambicioso e prometedor, o Keep it Simple, Make it Fast. Comecemos por reconhecer que ter uma das maiores figuras do establishment português (para além de sociólogo, ASS é o actual ministro dos negócios estrangeiros e ex-ministro do que conveio e qualquer coisa mais) a mandar bitaites sobre a história do punk em Portugal é uma excentricidade ao nível do objecto analisado. Mas, lamentavelmente, a surpresa não vai muito além disso e o que temos em mãos é um livro no geral tão aborrecido quanto o contributo político de ASS para o país.

Este não é o lugar para esmiuçar a obra com detalhe e focar-me-ei somente num ponto ou outro. A sua pretensão é oferecer uma análise sociológica do que foi e é o punk em Portugal desde a sua aparição em 1977. Concordamos com os autores quando sublinham a necessidade de adoptar um aparato crítico que permita evitar cair nas armadilhas dos discursos “épicos ou melancólicos” (p. 179), mas não é isso que vemos acontecer. Em poucas palavras, o que o livro nos mostra é o punk sequestrado, refém da autoridade e arrogância de um discurso sociológico que tenta enredar a presa com uns truques de algibeira e um jargão opaco. Acontece que o punk é cheio de contradições e multifacetado (enfim, como qualquer outro objecto) e não é facilmente domado por qualquer quadro teórico ou metodológico, como se fosse um daqueles sólidos geométricos que os putos têm que enfiar no buraco correspondente. As categorias e conceitos usados no livro são estranhos e incompatíveis com as vivências de quase todas as “cenas” punk, especialmente por estarem isentos de qualquer problematização. O que encontramos nestas páginas não é um diálogo, em que a histórias e as vivências do punk possam interpelar também as ciências sociais e as suas assumpções, mas antes um interrogatório meio surdo a roçar o positivismo empirista. E o resultado só podia ser um amontoado de caricaturas, becos sem saída e grandes afirmações insufladas de banalidade, em que a imagem do punk que é expelida vem prontinha a ser arrumada na prateleira do Supermercado – Secção “Indústria dos Lazeres”.
Concretizemos. A narrativa tem subjacente a ideia de que o punk é um todo coerente – é “uma cena”, para remeter para a terminologia do livro herdada do objecto estudado –, o que dilui a sua pluralidade e as suas contradições internas. As divergências ou dissonâncias que percorrem o punk, são apontadas, como tal, por relação a uma espécie de ortodoxia difusa ou a um cânone. E as vezes em que se proclama a sua diversidade não resolve o problema. Para os autores, não há qualquer diferença significativa entre os X-Acto e os Mata-Ratos, para além de uma ou outra idiossincrasia irrelevante, quanto mais “cenas” diferentes, com a sua autonomia e dinâmicas próprias que daí derivam. Na verdade, com tudo espremidinho podemos ir ainda mais longe: não há grande diferença entre os Santos & Pecadores e qualquer coisa que tenha saído do punk, excepto o facto de estes últimos serem um bocado mais rabugentos e estarem zangados.
Não alheio a isto, mas mais irritante, é o tique liberal de confrontar o punk com dicotomias estéreis como as de “político” e “apolítico” ou de “lado propositivo” e “lado crítico” (p. 185). Num dos capítulos, os autores (diria que é coisa do ASS, mas a autoria nunca é identificada) fazem uma birrinha cínica que aponta ao punk o seu mau feitio e a incapacidade de sugerir alternativas – como quem diz, são do contra e fazem muito barulho, mas é tudo garganta, pois não fazem nada, nem dizem como resolver os problemas. A ideia de “política” que aqui está presente remete, obviamente, para a sua dimensão institucional e para os reportórios tradicionais de protesto e de intervenção. Como quem diz, quando estes jovens amadurecerem vão perceber que o caminho é integrar ou criar um partido, uma ONG ou outra morgue semelhante.
Escapa aos autores que o punk teve um impacto muito mais significativo na vida de uma grande percentagem daqueles que por ele passaram do que a maior parte das merdas que saíram da academia ou dos parlamentos. Dificilmente há algo mais impactante do que a noção de que podes fazer tu mesmo e do que encontrar um espaço que te ensina a respirar fora da modorra em que procuram asfixiar-nos. Em meios como o punk, é possível perceber que sobreviver neste mundo talvez não tenha que passar por aprendermos a tolerar o intolerável.
Uma boa parte do controlo social deste sistema faz-se pela despolitização dos gestos, dos discursos e das práticas dos sujeitos que governa. O potencial de transformação individual e colectiva que reside em culturas como esta dificilmente pode ser apreendido através das bimbys que produzem estatísticas e generalidades. E a fotografia que extraímos do punk neste livro pouco mais é do que a de um cadáver encarquilhado e inofensivo. Punk é negação, não é uma fórmula. Não pretende ser heróico, sugerir soluções (a quem?) ou salvar o mundo. É uma arma dos fracos, é incoerente e contraditório, não é de confiança. E é assim que deve permanecer.
